Série “Lugar de Mulher”: práticas discriminatórias contra mulheres que conciliam maternidade e trabalho

Em 24/03/2017
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Na falta de uma mudança nos padrões culturais que torne natural pensar que os filhos são responsabilidade dos homens tanto quanto das mulheres, a maternidade se torna um momento delicado na vida da trabalhadora e, muitas vezes, é sinônimo de renúncia. Para a jornalista Rafaela Moura, por exemplo, a chegada de um bebê representou uma pausa na carreira por conta das jornadas que se estendiam pela noite. “Quando eu engravidei do meu primeiro filho, eu estava com dois vínculos, fazia assessoria de imprensa e também dava aulas no Senac. Quando eu fui ter o bebê, optei por ficar somente com o vínculo do Senac. O pai do meu filho é assistente social. Trabalha com proteção, e é também plantonista. E aí, no caso, eu abdiquei, né? Porque ele era muito pequenininho.”

Na hora de voltar ao mercado, a jornalista percebeu que a condição de mãe era vista com desconfiança pelos examinadores. “Em todas as entrevistas que eu fiz sempre era questionada se eu tinha filho, qual era a idade e se eu conseguiria dar conta. Não é requisito para o homem a questão de ter filho, mas para a mulher, é uma cobrança social forte.”

Se a cobrança para a mãe que trabalha é forte, as mães solteiras sofrem ainda mais. No formulário de seleção que um grande banco disponibiliza na internet, uma administradora de empresas que prefere não se identificar teve que informar, logo na inscrição, os dados dos dependentes. A candidata acredita que o fato de ter uma filha foi decisivo para não conseguir o emprego. “Posteriormente eu descobri que não fui selecionada porque eu tinha colocado dependente e a empresa não chamava mães solteiras, para a funcionária não se ausentar em horário de trabalho. Eu fiquei sabendo que eles também não contrataram mulheres noivas. Eles preferem pessoas solteiras ou pessoas que já tenham constituído família, já tenham filhos, que sejam realmente casadas.”

Tentar impedir o acesso ou excluir o trabalhador em função de sexo, idade, cor ou preferência sexual é ato de ilegalidade e sujeita a empresa a multa aplicada pelo Ministério do Trabalho. Auditora fiscal do órgão em Pernambuco, Felícia Mendonça relata que as denúncias relacionadas à gravidez são as mais frequentes quando o assunto é preconceito de gênero. “A gente já teve um caso aqui de trabalhadora doméstica que por estar grávida começou a sofrer uma série de medidas de retaliação da empregadora ao ponto de a gente verificar que realmente havia uma intenção de excluir a trabalhadora. Ela antes tinha local pra descanso, passou a não mais ter, uma série de situações que levaram à aplicação de uma multa por discriminação.”

As mães trabalhadoras contam com uma série de direitos específicos garantidos pela legislação. A estabilidade desde a gravidez até cinco meses depois do parto é um exemplo. As empresas também devem dispor de local apropriado para a guarda do bebê durante o período de amamentação, com berçário, cozinha, sala de lactação e banheiro. Apesar da regra estar prevista na CLT desde a década de 1940, a diretora de políticas para as mulheres da Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco, Genusi Marques,  conta que ainda há resistência por parte dos empregadores. “Eles têm dito que a creche no local de trabalho tem feito com que a mulher tenha rendido menos, o que eu não acredito, não concordo. Eles alegam isso porque ela para alguns minutos para poder fazer a amamentação, mas eu acho que isso só vem a beneficiar o trabalho uma vez que a mulher vai estar muito mais tranquila, para poder desenvolver um trabalho com muito mais qualidade.”

Na avaliação da jornalista e blogueira Sarah Eleutério, a chegada do filho representou, de fato, um pouco menos de dedicação ao trabalho. Mas, com jogo de cintura, ela acredita que é possível, sim, fazer com que a maternidade não represente um obstáculo. “O que talvez defina o fato de a mulher se manter ou não no mercado vai ser a sua disposição pra isso. Muitas mães inclusive desistem do trabalho para se dedicar exclusivamente ao filho. Nós, mães, não podemos ser as primeiras a nos excluir desse mercado já tão difícil. Não é fácil, mas essa é uma luta por cada vez mais direitos e cada vez mais espaço.”

Para provar que a maternidade pode render bons frutos também na vida profissional, o blog criado pela jornalista com a intenção de trocar experiências sobre maternidade, tem chamado a atenção de marcas voltadas para o público infantil e rendido boas oportunidades. É um exemplo de como a criatividade pode ser uma aliada para driblar os preconceitos e ainda garantir uma renda extra.